terça-feira, 26 de junho de 2012

As missões na Amazônia


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Acessado em 26.06.2012


As missões na Amazônia

Entre os missionários presentes na Capitania de Grão-Pará, na Amazônia, em 1720, os jesuítas foram os que mais se destacaram. Das 63 missões da região, 19 estavam sob o controle da Companhia de Jesus, informa José Alves de Souza Jr.

Por: Patricia Fachin

“A colonização portuguesa na Amazônia desenvolveu-se assentada no tripé: comércio/aldeamentos/fortalezas”, menciona José Alves de Souza Jr., em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Ele explica que, já em meados de 1600, a Amazônia “exigia extremo cuidado por parte dos portugueses, haja vista o constante assédio que sofria de seus vizinhos”. Para garantir a ocupação lusitana na região, a alternativa foi colonizar os índios, o que exigiu, segundo o pesquisador, a necessidade de transformá-los em índios-colonos, “através de um processo de desindianização e aportuguesamento que os levasse a interiorizar os interesses portugueses”. Daí, explica Souza Jr., “a grande importância dos aldeamentos missionários, onde os índios “descidos” eram submetidos ao referido processo por meio da catequese, para que se tornassem cristãos a serviço da colonização”.
Entre os missionários, os jesuítas se destacaram, eram os que “mais promoveram a interiorização da catequese na Amazônia”. A competência deles em “lidar com os índios era reconhecida pela própria Coroa, que, inúmeras vezes, lhes entregou o monopólio dos descimentos e da administração temporal dos aldeamentos”.
José Alves de Souza Jr. é graduado em Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal do Pará, mestre em História pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e doutor em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - USP. Atualmente é professor na Universidade Federal do Pará. É autor de Mundo Contemporâneo. Do Imperialismo à derrocada do Leste Europeu (Belém: Editora Paka-Tatu Ltda, 2002). O professor participará da mesa-redonda 1: Modelos e estratégias missionárias, com o professor Karl-Heinz Arenz. O evento, parte integrante do XII Simpósio Internacional IHU – A experiência missioneira: território, cultura e identidade, acontecerá no dia 27-10-2010, às 14h, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - De acordo com dados históricos, a partir de que momento chegaram os primeiros estrangeiros na Amazônia e como se deu o contato deles com os habitantes indígenas?
José Alves de Souza Jr - A presença de estrangeiros na Amazônia é muito anterior à chegada dos portugueses na região no século XVII, mais precisamente no ano de 1616, quando, a 12 de janeiro, Francisco Caldeira Castelo Branco fundou o Forte do Presépio, núcleo originário da cidade de Belém. Os espanhóis foram os primeiros a navegar o rio Amazonas, por eles denominado de Santa Maria de la Mar Dulce, com as expedições de Vicente Yanez Pinson e Diogo de Lepe ainda no século XV, de Gonçalo Pizarro e Francisco Orellana, que, entre 1539 e 1541, navegou por toda a extensão do rio Amazonas, de Pedro Ursua, em 1561, em busca do El dorado, terminada por Lope de Aguirre, já que Ursúa foi assassinado por seus companheiros de viagem. Também ingleses, holandeses e franceses estiveram na região durante o século XVI. O contato com os indígenas da região para alguns desses expedicionários foi trágico, sendo este o caso da expedição de Aguirre, praticamente dizimada por índios. No entanto, tal contato envolvia também relações de troca e, em alguns casos, como o da expedição francesa que invadiu o Maranhão, em 1612, com o objetivo de fundar a França Equinocial, de aliança militar celebrada com os Tupinambá.
IHU On-Line - Como se deu o processo de missões religiosas na Amazônia? Quais as primeiras ordens religiosas que atuaram na região e como era a relação entre indígenas e missionários?
José Alves de Souza Jr - A colonização portuguesa na Amazônia desenvolveu-se assentada no tripé: comércio/aldeamentos/fortalezas. Área de fronteira colonial e circundada por inúmeras possessões estrangeiras, a Amazônia exigia extremo cuidado por parte dos portugueses, haja vista o constante assédio que sofria de seus vizinhos. Nesse sentido, a ocupação efetiva da região constituía-se em necessidade imperiosa, pois só assim o domínio lusitano estaria garantido. A dificuldade de deslocar colonos brancos para a região fez dos índios a principal alternativa da colonização, o que exigia a sua transformação em índios-colonos, através de um processo de desindianização e aportuguesamento que os levasse a interiorizar os interesses portugueses. Daí a grande importância dos aldeamentos missionários, onde os índios “descidos” eram submetidos ao referido processo por meio da catequese, para que se tornassem cristãos a serviço da colonização. Além disso, as missões, principalmente as jesuíticas, que foram as que mais se interiorizaram na região, serviam também de “muralhas do sertão”. As ordens religiosas que atuaram na Amazônia foram os Franciscanos, Carmelitas, Mercedários e Jesuítas.
IHU On-Line – Por que as missões jesuíticas foram denominadas de muralhas do sertão?
José Alves de Souza Jr - Pelo fato de funcionarem como defesa contra o assédio de estrangeiros nas fronteiras da Colônia na região Norte e em outras regiões do Brasil, na medida em que a instalação das missões nessas áreas iniciava o processo de ocupação da mesmas, garantindo assim o domínio lusitano. Vale ressaltar que os jesuítas foram os missionários que mais promoveram a interiorização da catequese na Amazônia, servindo como exemplo disso a solicitação apresentada a D. José I, em 1753, pelo padre jesuíta alemão Lourenço Kaulen para que “se dignasse permitir aos PP. Alemães que viemos para trabalhar e para salvar as almas, que passem, por exemplo, rio Tapajós ou Xingu, onde pudéssemos empregar o nosso zelo...” , área fronteiriça com a América espanhola, cujo único acesso possível era por canoa, levando a viagem de dois a três meses, permissão essa, é claro, concedida.
IHU On-Line - Como e em qual momento histórico se constituiu o processo de instalação e desenvolvimento da Companhia de Jesus no Grão-Pará (estado do Grão-Pará e Maranhão) foi uma das unidades administrativas da América portuguesa juntamente com o Estado do Brasil? Por que os jesuítas tiveram maior destaque na região?
José Alves de Souza Jr - A instalação da Companhia de Jesus na Capitania do Grão-Pará foi marcada pela adversidade, pois os primeiros jesuítas que para lá se deslocaram, sob as ordens do Pe. Luiz Figueira, no ano de 1645, acabaram mortos nas mãos dos índios aruans, depois que a embarcação em que viajavam naufragou na entrada da baía do Sol (praia da ilha do Mosqueiro (balneário de praias de água doce, próximo à Belém). Em 1652, o Pe. Antonio Vieira e mais sete jesuítas foram mandados para o Maranhão, vindo Vieira investido no cargo de Superior das Missões e o Pe. Manoel de Lima no de Comissário do Santo Ofício.
Entre os missionários, a competência dos jesuítas em lidar com os índios era reconhecida pela própria Coroa, que, inúmeras vezes, lhes entregou o monopólio dos descimentos e da administração temporal dos aldeamentos. Ao se instalarem em Belém, fundaram o Colégio de Santo Alexandre, onde educavam índios e filhos de colonos, e disseminaram um expressivo número de missões pelo território, inclusive nas áreas de fronteira com os outros domínios coloniais.
Durante o período da União Ibérica (1580-1640), Filipe III (IV na Espanha) dividiu a colônia em duas unidades administrativas independentes, por Carta Régia de 04/05/1617, confirmada por outra de 13/06/1621: o Estado do Brasil, com sede em Salvador, e o Estado Colonial do Maranhão, com sede em São Luís. Em 1652, o Estado Colonial do Maranhão foi extinto e instituídas duas capitanias gerais, a do Maranhão e a do Grão-Pará. Por Carta Régia de 25-08-1654 foi restabelecido o Estado, agora como Estado do Maranhão e Grão-Pará, com sede ainda em São Luís. No ano de 1751, D. José I transferiu a capital do estado de São Luís para Belém, passando o mesmo a ser denominado de estado do Grão-Pará e Maranhão.

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